Desfaz as malas, retira os bocados de excessos que pesam mais do que deviam
Despe suas vestes e assegura-te que não sobre nada
Encontra-te de frente para mim e me enxerga como sendo o teu reflexo
E então me olhas como se fosse a ti próprio
Como se a existência de nós dois se fizesse em um só
Assim, apenas assim desvendarei a mim mesmo
Estando eu submerso em ti.
Eu. Você. Malditos segredos que
não confessam o que eu tanto queria descobrir. Te contrario e você me desmonta
aos poucos. Eu, você. A cada encontro o desejo
ultrapassa o sexo, e tento saber se existe algo mais que isso.
Nunca sei. Mas o que nós sabemos
é que o tempo não é o mesmo quando estamos juntos. É o que eu sei sobre você. E
sobre mim. É o que eu devo saber sobre a vida. As coisas terminam e a gente não
percebe porque tudo passou tão depressa, porque tudo era bom o suficiente para que
passasse assim.
E se terminar e nenhum de nós percebermos
isso? E se a vida nos mostrar coisas que se tornem bem mais importante para nós
do que o que a gente vive? E se amanhã nenhum de nós se importar com mais
nada que nos envolve?
Às vezes sinto falta dos sentimentos. Mas todos têm medo deles. E só por isso eu também tenho.
Às vezes sinto muito, e só por isso eu tento não sentir. Vejo-me fingindo o
tempo todo, e quando estou com você não sei se de fato não sinto, ou se tudo é
mais uma trama inventada por mim mesma. Perco-me dentro desse abismo de gente
moderna.
Quando não se pode romper com as tramas que lhes pregam
Quando os caminhos se entrelaçam, se cruzam e se desprendem
Quando a presença se mistura entre tantas ausências
Quando a vida se estende em pequenas formas de sobrevivência
Quando os vazios não mais se preenchem
E quando a existência escorrega num abismo mortífero
Ainda assim pode-se haver uma parte, uma arte
Uma verdade inquieta, uma realidade desperta
Uma ideia, ou uma velha, uma prega
Qualquer que seja, como seja
Uma esperança qualquer
Ou uma forma sequer
De mostrar que enquanto há vida
Há também um findar-se sem finda,
Mas que não se termina sem ao menos
Mostrar que pode-se criar
Curar
Amar.
O encanto se
fez no minúsculo de uma vida, que na sensibilidade de suas feições fez renascer em mim o que há muito eu já não mais
conhecia. É esta infância que cresce aos meus olhos que me põe no colo e abraça
com a grandeza de um amor que me reconstrói, trazendo de volta os pedaços que faltavam
para me completar. Rendo-me à miudeza deste ser que não se cansa de ensinar. Como se ele soubesse que tudo que fui já se perdeu de
mim faz tempo. Como se ele soubesse que a dificuldade da maturidade está nos
desgastes que se leva com o tempo, com as percas que deixei perderem-se, só
para ter o prazer de crescer e crescer, e saber que sei mais do que quando fui
minúsculo também. E o erro se faz aí, meu filho. Você me ensinou uma vida toda mesmo ainda estando no início dela, e eu quero ensinar-te com o erro que cometi
de querer ter mais vida do que eu tinha antes. Ensino-te então que a vida se
faz assim, como tu estás, criança, mas que se continua criança também. A continuidade
da vida se cria com a sabedoria que não tive, mas que agora venho dizendo. O
segredo está em não deixar pedaços pelo caminho. O segredo está em levar-te
inteiro por onde passares, meu filho. Conto-te isto, mas não sei se
recordarás do que te falo, não sei se te importas em lembrar de coisas para
fazer depois. Estás preocupado com o presente, preocupas-te mais com as
fantasias que envolvem tua imaginação, e que daqui fico tentando entende-las. Daqui
te enxergo nos detalhes e vejo que ainda não aprendi tudo que me queres
ensinar. E por isso que me chamas agora para devolver-me os retalhos da vida, para
reconstruir-me com os pedaços que faltam. Se tu não tivestes vindo, jamais
saberia que o que me faltava era apenas a tua presença, a tua inocência
trazendo de volta a minha, tu devolvendo o que um dia fui.
Somos então um
reflexo.
Tu és a
criança que deixei de lado, e mesmo assim agora me puxas para dividir comigo as brincadeiras, e envolver-me com o encanto das coisas pequenas... Com o teu encanto.
Quando o choro não é suficiente, o sofrimento procura saídas que não cabem no que nos pertence. Suas tramas se findam na angústia que faz-se firme, e ferve, queima. Quando a dor da carne nem alcança as lamúrias da alma, descobre-se então o quão intenso é o sofrimento desperto na existência. Vive na ênfase ofegante de querer mostrar-se, desperta a certeza de que não há um fim, ou de que vive-se apenas os restos de um final. As sobres corroem, cospem e não aceitam a ponta de uma mísera felicidade. A dor que não esconde o prazer que lhe rege, nem muito se perde pra deixar de doer. Aceita ser sentida sem cautela, esvaindo-se no que nem lhe pertence, mas é o que lhe resta, e só por isso dói.
Ouço os gritos que soam por trás das paredes que (não) me aprisiona. São as vozes que não falam, não sabem, não sentem. Repetem-se por um impulso que lhes pregam. São vozes que imploram palavras só para não perderem-se. Só para não acharem-se.
Aqui chegam os gritos que já não importa se são ouvidos. São eles donos das falsas verdades que apoderam-se dos seres, pelos verbos andantes que circulam pelas esquinas. Pelas mídias. Maquiam-se de bondade, vestem-se com disfarces e usam a delicadeza do imperativo que se repete, e repete pelos outros. Outros que não sabem o que são nem o que fazem.
Outros que são reféns mas não veem as correntes que prendem seus braços, misturam-se entre os bandidos mas que não importam se forem confundidos, bebem a ignorância mas lamentam-se pelas falhas, ferem-se mas não acusam os culpados, matam-se.
E depois te tudo, e de todos, agradecem pela morte.
Seus pés alcançavam o longe
Era dono de uma alma que apenas lhe implorava liberdade
Hospedeiro de passagem, encontrava-se em cada canto
Passos longos, mente aberta para as possibilidades que hão-de vir
Longe de obrigações, desvendava as belezas escondidas nos ínfimos detalhes por onde passava
Perdia-se para encontrar-se
Os lugares nunca lhe faziam permanecer, por mais belos que fossem
De bagagens feitas, estava sempre pronto para a próxima partida
Sua alegria estava no desconforto da viagem
As estradas lhe pertenciam
Eram tantas as chegadas que, por vezes, esquecia-se de onde estava
No efêmero de suas permanências encontrava-se com uns e outros
Paixões passageiras, que logo terminavam com um "adeus"… E mais uma partida.
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