Quando o choro não é suficiente, o sofrimento procura saídas que não cabem no que nos pertence. Suas tramas se findam na angústia que faz-se firme, e ferve, queima. Quando a dor da carne nem alcança as lamúrias da alma, descobre-se então o quão intenso é o sofrimento desperto na existência. Vive na ênfase ofegante de querer mostrar-se, desperta a certeza de que não há um fim, ou de que vive-se apenas os restos de um final. As sobres corroem, cospem e não aceitam a ponta de uma mísera felicidade. A dor que não esconde o prazer que lhe rege, nem muito se perde pra deixar de doer. Aceita ser sentida sem cautela, esvaindo-se no que nem lhe pertence, mas é o que lhe resta, e só por isso dói.
Ouço os gritos que soam por trás das paredes que (não) me aprisiona. São as vozes que não falam, não sabem, não sentem. Repetem-se por um impulso que lhes pregam. São vozes que imploram palavras só para não perderem-se. Só para não acharem-se.
Aqui chegam os gritos que já não importa se são ouvidos. São eles donos das falsas verdades que apoderam-se dos seres, pelos verbos andantes que circulam pelas esquinas. Pelas mídias. Maquiam-se de bondade, vestem-se com disfarces e usam a delicadeza do imperativo que se repete, e repete pelos outros. Outros que não sabem o que são nem o que fazem.
Outros que são reféns mas não veem as correntes que prendem seus braços, misturam-se entre os bandidos mas que não importam se forem confundidos, bebem a ignorância mas lamentam-se pelas falhas, ferem-se mas não acusam os culpados, matam-se.
E depois te tudo, e de todos, agradecem pela morte.
Seus pés alcançavam o longe
Era dono de uma alma que apenas lhe implorava liberdade
Hospedeiro de passagem, encontrava-se em cada canto
Passos longos, mente aberta para as possibilidades que hão-de vir
Longe de obrigações, desvendava as belezas escondidas nos ínfimos detalhes por onde passava
Perdia-se para encontrar-se
Os lugares nunca lhe faziam permanecer, por mais belos que fossem
De bagagens feitas, estava sempre pronto para a próxima partida
Sua alegria estava no desconforto da viagem
As estradas lhe pertenciam
Eram tantas as chegadas que, por vezes, esquecia-se de onde estava
No efêmero de suas permanências encontrava-se com uns e outros
Paixões passageiras, que logo terminavam com um "adeus"… E mais uma partida.
Sofro com o que não sei, e mesmo assim não me importo em tentar aprender. São as desordens que acobertam-me, usando as fragilidades impostas pela alma que já não sabe ser minha.
De paradoxos reinvento os meus dias, e mesmo assim reclamo de seus defeitos. São minhas as complicações, e quando delas tento escapar, descubro que são feitas de mim, ou eu sou feita delas. Se juntam como ínfimos grão que aos poucos se formam neste corpo que dispensa o conforto para dar lugar às vastas perturbações que se afloram a cada instante, não só no corpo, mas no existencial de mim.
De uma alma que não sabe o que quer, sou dona. E encontro nela os caminhos tantos, desprovidos de uma certeza. Quais me serão usáveis, desconheço. De procuras já me cansei, agora espero o que me permita descobrir-se, sem me dar ao favor de sair do lugar. Porque, repito, cansei.
Diante do que não lhe parecia ser seu, procurou encontrar-se. Só duraria um instante. Talvez não acontecesse outra vez. Seus olhos fitavam aquele sorriso que aos poucos desaparecia. Sumia entre tantos outros que o rodeava… Aos poucos se ia, cada vez mais longe de seus olhos. Outros rostos invadiam o espaço antes ocupado pelo sorriso, que nem parecia mais sorrir.
Tentou não perde-lo, resgatar aquele único que escondera-se dentre tantos outros amarelos sorrisos desprovidos de um olhar. Aquele não lhe parecia ser falso. A alegria encontrava-se ali, e isso o chamou a atenção. E o chamou, mas saiu correndo às pressas, como se procurasse por subterfúgios.
De encontro breve, acompanhado pela sinceridade das feições das faces, partiu. Levando um pouco do brilho dos olhos que ficaram a sua procura, e deixando um pouco da alegria que estava exposta naqueles lábios.
(“Dura a vida alguns instantes, porém mais do que bastantes, quando cada instante é sempre..."
Chico Buarque)
Perdi-me depois de sua partida. As esperanças tidas quando ele aqui ainda permanecia foram levadas dentro dos
amontoados embrulhos postos numa mala pequena que carregava às pressas durante
a indesejada viagem.
Perdi-me. Talvez ele tenha me
levado, ou talvez me jogado entre as estradas tantas que fizeram parte de seu
itinerário.
Desconheço o motivo de sua partida. Foi sem ao
menos justificá-la. O adeus foi sua única resposta quando intrometi-me em,
junto aos prantos, perguntar-lhe um porquê. Queria apenas um motivo, mesmo que
fossem cobertos por mentiras. Só para dar-me o prazer de crer que ainda eu lhe teria um
pouco de importância.
Ele se foi pelas vastas estradas, sem deixar
vestígios, ou esperanças de uma volta. Levou-me junto, talvez pelas cartas onde
doei-me às palavras e me pus a escrever os tantos versos jurando o amor que
nunca neguei ter. Talvez pelos retratos que roubou de meu álbum e depois os
encontrei dentro de sua carteira.
De qualquer forma, levou-me. Só espero que não
me tenha jogado durante sua viagem. Só espero que, de mim, ainda tenha restado
alguma lembrança, por mais que eu não acredite em sua volta. Por mais que eu
não o queira de volta.
Só espero reconstruir-me e ocupar, de alguma
forma, a ausência deixada pela sua partida. E espero.
Cá estou eu, neste ínfimo espaço que me prende em mim, nas incompletudes distantes de serem inteiras, nos vão que me devolvem, nos estreitos espaços que me levam.
Sou o caos que habita em mim, sou as saudades que procuram por encontros e os encontros que procuram por saudades.
Sou deserto. Solidão. Espaço inabitado, porém, cheio demais para caber alguma coisa.
Sou o grito do desassossego, o grito que se faz silêncio. O silêncio que se faz som.
Sou o caos que habita em mim, sou as saudades que procuram por encontros e os encontros que procuram por saudades.
Sou deserto. Solidão. Espaço inabitado, porém, cheio demais para caber alguma coisa.
Sou o grito do desassossego, o grito que se faz silêncio. O silêncio que se faz som.
Sou desencontro, parto procurando por mim, mas não me encontro. Me perco em cada partida. Sinto saudades minhas.
Sou o segredo guardado nos enclausuros do ser que ainda me resta. Nunca soube o que sou, nunca me interessei em dizer.
Sou o que nunca fui e, fui querendo ser alguma coisa, vivendo na real-idade que me prende e procurando a liberdade que me faça ser.
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