quarta-feira, 27 de novembro de 2013 1 comentários

Sem título

Seus pés alcançavam o longe
Era dono de uma alma que apenas lhe implorava liberdade
Hospedeiro de passagem, encontrava-se em cada canto 
Passos  longos, mente aberta para as possibilidades que hão-de vir
Longe de obrigações, desvendava as belezas escondidas nos ínfimos detalhes por onde passava
Perdia-se para encontrar-se
Os lugares nunca lhe faziam permanecer, por mais belos que fossem
De bagagens feitas, estava sempre pronto para a próxima partida
Sua alegria estava no desconforto da viagem
As estradas lhe pertenciam
Eram tantas as chegadas que, por vezes, esquecia-se de onde estava
No efêmero de suas permanências encontrava-se com uns e outros
Paixões passageiras, que logo terminavam com um "adeus"… E mais uma partida.

         
segunda-feira, 9 de setembro de 2013 6 comentários

Sobre o que não sei

 Sofro com o que não sei, e mesmo assim não me importo em tentar aprender. São as desordens que acobertam-me, usando as fragilidades impostas pela alma que já não sabe ser minha. 
 De paradoxos reinvento os meus dias, e mesmo assim reclamo de seus defeitos. São minhas as complicações, e quando delas tento escapar, descubro que são feitas de mim, ou eu sou feita delas. Se juntam como ínfimos grão que aos poucos se formam neste corpo que dispensa o conforto para dar lugar às vastas perturbações que se afloram a cada instante, não só no corpo, mas no existencial de mim. 

 De uma alma que não sabe o que quer, sou dona. E encontro nela os caminhos tantos, desprovidos de uma certeza. Quais me serão usáveis, desconheço. De procuras já me cansei, agora espero o que me permita descobrir-se, sem me dar ao favor de sair do lugar. Porque, repito, cansei. 
domingo, 14 de julho de 2013 9 comentários

O eterno de um instante


   Diante do que não lhe parecia ser seu, procurou encontrar-se. Só duraria um instante. Talvez não acontecesse outra vez. Seus olhos fitavam aquele sorriso que aos poucos desaparecia. Sumia entre tantos outros que o rodeava… Aos poucos se ia, cada vez mais longe de seus olhos. Outros rostos invadiam o espaço antes ocupado pelo sorriso, que nem parecia mais sorrir. 
 Tentou não perde-lo, resgatar aquele único que escondera-se dentre tantos outros amarelos sorrisos desprovidos de um olhar. Aquele não lhe parecia ser falso. A alegria encontrava-se ali, e isso o chamou a atenção. E o chamou, mas saiu correndo às pressas, como se procurasse por subterfúgios. 


 De encontro breve, acompanhado pela sinceridade das feições das faces, partiu. Levando um pouco do brilho dos olhos que ficaram a sua procura, e deixando um pouco da alegria que estava exposta naqueles lábios. 
   
  
(“Dura a vida alguns instantes, porém mais do que bastantes, quando cada instante é sempre..."
                                                                                     Chico Buarque)

domingo, 21 de abril de 2013 11 comentários

O Eu que partiu



 Perdi-me depois de sua partida. As esperanças tidas quando ele aqui ainda permanecia foram levadas dentro dos amontoados embrulhos postos numa mala pequena que carregava às pressas durante a indesejada viagem.
Perdi-me. Talvez ele tenha me levado, ou talvez me jogado entre as estradas tantas que fizeram parte de seu itinerário.
 Desconheço o motivo de sua partida. Foi sem ao menos justificá-la. O adeus foi sua única resposta quando intrometi-me em, junto aos prantos, perguntar-lhe um porquê. Queria apenas um motivo, mesmo que fossem cobertos por mentiras. Só para dar-me o prazer de crer que ainda eu lhe teria um pouco de importância.
 Ele se foi pelas vastas estradas, sem deixar vestígios, ou esperanças de uma volta. Levou-me junto, talvez pelas cartas onde doei-me às palavras e me pus a escrever os tantos versos jurando o amor que nunca neguei ter. Talvez pelos retratos que roubou de meu álbum e depois os encontrei dentro de sua carteira.
 De qualquer forma, levou-me. Só espero que não me tenha jogado durante sua viagem. Só espero que, de mim, ainda tenha restado alguma lembrança, por mais que eu não acredite em sua volta. Por mais que eu não o queira de volta.
 Só espero reconstruir-me e ocupar, de alguma forma, a ausência deixada pela sua partida. E espero.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013 11 comentários

Em mim

Cá estou eu, neste ínfimo espaço que me prende em mim, nas incompletudes distantes de serem inteiras, nos vão que me devolvem, nos estreitos espaços que me levam.
Sou o caos que habita em mim, sou as saudades que procuram por encontros e os encontros que procuram por saudades. 
Sou deserto. Solidão. Espaço inabitado, porém, cheio demais para caber alguma coisa. 
Sou o grito do desassossego, o grito que se faz silêncio. O silêncio que se faz som.
Sou desencontro, parto procurando por mim, mas não me encontro. Me perco em cada partida. Sinto saudades minhas.
Sou o segredo guardado nos enclausuros  do ser que ainda me resta. Nunca soube o que sou, nunca me interessei em dizer. 
Sou o que nunca fui e, fui querendo ser alguma coisa, vivendo na real-idade que me prende e procurando a liberdade que me faça ser. 

sábado, 3 de novembro de 2012 12 comentários

Desconcertos




 Sento-me à beira desta janela, onde o sol dá seus últimos brilhos do dia e a noite vai aos poucos tomando o seu espaço, me deixando nesta penumbra. Fico inerte, protegendo-me detrás das paredes deste quarto que me separa das infinitudes do mundo, limitando-me o espaço. É aqui que encontro o amparo para os meus sofrimentos, dissipando-os entre estes retalhos que sobram do dia. Entrego-os ao fim desta tarde, sob este céu coberto por nuvens escuras que se preparam para banhar-me com sua chuva. 
 A escuridão vem ocupando seu espaço, as nuvens que cobrem o céu antecipam a chegada da noite, o frio toma seu lugar neste quarto, entra pela janela e se hospeda em meu corpo. O vestido que uso não serve para refugiar-me deste frio que entra rapidamente neste recôndito. Continuo parada, como se quisesse que toda esta chuva que está por vir, dissipe-se dentro de mim. E é isso que desejo. Quero que estas águas refugiadas nas nuvens caiam dentro de mim, lave toda esta masmorra, retire os destroços que ha tempos venho colecionando.
 Procuro por subterfúgios, tento esquivar-me desta melancolia costurada na alma. Mas se existem saídas, as desconheço. Não é fácil retirar aquilo que está entrelaçado dentre estes tantos paradoxos desprovido de qualquer ajuda, livrar-se das amarras que atormentam a alma, fazendo-a inquieta. São muitos os caos, não consigo entendê-los, todos são conhecidos apenas por sofrimentos que me impedem de sair deste devaneio. Tento procurar saídas onde só existem inícios, e acho que estou no caminho certo. - Como alguém iria encontrar caminhos certos vivendo uma vida tão incerta quanto a minha? - Não entendo onde quero chegar, se o que faço é apenas estar sentada dentro deste quarto, enclausurada, longe das pessoas, que talvez, possam me oferecer algo que nesta solidão ainda não consegui encontrar.
 Aos poucos, as nuvens que cobrem todo o céu vem revelando os segredos escondidos dentro delas, segredo esse que sempre espero ansiosa a chegar. É a chuva se revelando, aos poucos ela vai molhando o meu rosto com suas águas frias de inverno, aos poucos me entrego a ela. 

 Chuva, tu que ha tempos não via, agora estás aqui. Pudera eu retirar-me deste quarto e dançar sob suas fortes gotas de alegria, e depois, estender-me neste chão de areia, deixando que me molhes o quanto quiseres. 

 Não posso sair daqui, algo me prende, algo bem mais forte que minha coragem. Meus pés não reconhecem a textura das areias, o cheiro das flores, a graça de ser livre. Estou longe desta liberdade, mas que está tão próxima de mim. Basta apenas pular esta janela que me prende neste quarto, retirar os demasiados medos que aqui me aprisionam. 
 Um dia irei desprender-me daqui, sair em busca da liberdade que talvez, também esteja à minha procura. Um dia, quem sabe…


 #conto
sexta-feira, 7 de setembro de 2012 11 comentários

Ausências

Estou me encontrando com os passados, recolhendo os fatos de onde vim, resgatando as memórias e trazendo de volta as lembranças que o tempo aos poucos vêm ofuscando. Escrevo em um diário que tenho desde menino as histórias que fizeram parte da minha vida. Escrevo os sofrimentos, a simplicidade daqueles que me acompanharam até a hora de suas partidas. As suas ausências destruíram o pouco que me restava, me impedindo de querer ser alguma coisa. Então, vou caminhando a esmo, esperando também minha partida. 
 Neste espaço já não me serve nada, não tenho mais os cuidados maternos, as histórias contadas pelo meu avô e nem os irmãos com quem dividiam comigo as tardes de brincadeiras que costumávamos inventar. Faltam-me presenças, não sei quem sou e o que ainda tenho a fazer por aqui. Talvez eu apenas seja os restos de uma histórias que em instantes irá findar-se. Estou na espera de que esse tempo que de mim leva tudo, também me leve, me tire deste mundo onde não sou mais do que alguém ocupando um espaço entre tantos outros.
 Enquanto por aqui ainda permaneço, passo horas observando inerte o que ainda me resta. A casa antiga, paredes que recordam aqueles que um dia aqui moraram e que guardam os sofrimentos que estiveram sempre ao meu lado, fizeram-me retornar aos acontecimentos, memórias que ficaram guardadas nas velhas mobílias que até hoje nunca foram trocadas.
 Vou escrevendo o que estas estruturas me permitem lembrar. Os quartos intactos, paredes que ainda foram pintadas pelo meu tio, e cozinha que guarda o cheiro da comida feita pelo meu avô. Ainda me lembro. São os sabores que não deixei o tempo levar.
 Continuo escrevendo o que meus olhos me deixam enxergar, e também o que eu não queria mais ter lembrado. Das marcas dos sofrimentos que eram próprias da nossa existência, marcas que deixei no passado, mas que agora insistiram em retornar, reabrindo as feridas que já haviam cicatrizado. Também escrevo o que se esconde nos silêncios, esses que mostram o que as imagens não oferecem, revelando os mistérios, e me fazendo lembrar as vozes que há anos não ouço mais. Silêncios que me trazem à realidade e me mostram que agora estou só, numa casa vazia, escrevendo as vidas que fizeram parte desta história, onde agora só resta um personagem. Apenas me resta.
 O antigo que aqui habita me devolve às origens. Me devolve ao menino desajeitado que o tempo me impediu de continuar sendo. Agora cresci, o corpo que antes era meu não caberia no que hoje sou. Cresci, e hoje  o que vive em mim são as saudades, ausências que completam a grandeza desta alma inquieta que é minha. 
 Não me restam mais folhas em branco, tudo o que passei já está escrito. Não tenho mais lembranças, tudo o que vivi se transformaram em palavras, neste diário que ninguém se atreveria a ler, a não ser eu. O que apenas tenho agora são os silêncios, e eles já não me dizem nada. 
Vou relendo todas as realidades postas nestas folhas, onde o começo foi escrito pelas mãos daquele menino que um dia fui, encontrando nestas primeira páginas mais lembranças dos sofrimentos que  juntos passamos. São palavras que devolvem o que a memória deixou escapar. 
 Relendo as tantas vidas que aqui foram escritas e que hoje as ausências tomaram conta dos espaços que  elas ocupavam, me despeço deste mundo antes que ele me expulse de vez. 
 
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