sexta-feira, 7 de setembro de 2012 11 comentários

Ausências

Estou me encontrando com os passados, recolhendo os fatos de onde vim, resgatando as memórias e trazendo de volta as lembranças que o tempo aos poucos vêm ofuscando. Escrevo em um diário que tenho desde menino as histórias que fizeram parte da minha vida. Escrevo os sofrimentos, a simplicidade daqueles que me acompanharam até a hora de suas partidas. As suas ausências destruíram o pouco que me restava, me impedindo de querer ser alguma coisa. Então, vou caminhando a esmo, esperando também minha partida. 
 Neste espaço já não me serve nada, não tenho mais os cuidados maternos, as histórias contadas pelo meu avô e nem os irmãos com quem dividiam comigo as tardes de brincadeiras que costumávamos inventar. Faltam-me presenças, não sei quem sou e o que ainda tenho a fazer por aqui. Talvez eu apenas seja os restos de uma histórias que em instantes irá findar-se. Estou na espera de que esse tempo que de mim leva tudo, também me leve, me tire deste mundo onde não sou mais do que alguém ocupando um espaço entre tantos outros.
 Enquanto por aqui ainda permaneço, passo horas observando inerte o que ainda me resta. A casa antiga, paredes que recordam aqueles que um dia aqui moraram e que guardam os sofrimentos que estiveram sempre ao meu lado, fizeram-me retornar aos acontecimentos, memórias que ficaram guardadas nas velhas mobílias que até hoje nunca foram trocadas.
 Vou escrevendo o que estas estruturas me permitem lembrar. Os quartos intactos, paredes que ainda foram pintadas pelo meu tio, e cozinha que guarda o cheiro da comida feita pelo meu avô. Ainda me lembro. São os sabores que não deixei o tempo levar.
 Continuo escrevendo o que meus olhos me deixam enxergar, e também o que eu não queria mais ter lembrado. Das marcas dos sofrimentos que eram próprias da nossa existência, marcas que deixei no passado, mas que agora insistiram em retornar, reabrindo as feridas que já haviam cicatrizado. Também escrevo o que se esconde nos silêncios, esses que mostram o que as imagens não oferecem, revelando os mistérios, e me fazendo lembrar as vozes que há anos não ouço mais. Silêncios que me trazem à realidade e me mostram que agora estou só, numa casa vazia, escrevendo as vidas que fizeram parte desta história, onde agora só resta um personagem. Apenas me resta.
 O antigo que aqui habita me devolve às origens. Me devolve ao menino desajeitado que o tempo me impediu de continuar sendo. Agora cresci, o corpo que antes era meu não caberia no que hoje sou. Cresci, e hoje  o que vive em mim são as saudades, ausências que completam a grandeza desta alma inquieta que é minha. 
 Não me restam mais folhas em branco, tudo o que passei já está escrito. Não tenho mais lembranças, tudo o que vivi se transformaram em palavras, neste diário que ninguém se atreveria a ler, a não ser eu. O que apenas tenho agora são os silêncios, e eles já não me dizem nada. 
Vou relendo todas as realidades postas nestas folhas, onde o começo foi escrito pelas mãos daquele menino que um dia fui, encontrando nestas primeira páginas mais lembranças dos sofrimentos que  juntos passamos. São palavras que devolvem o que a memória deixou escapar. 
 Relendo as tantas vidas que aqui foram escritas e que hoje as ausências tomaram conta dos espaços que  elas ocupavam, me despeço deste mundo antes que ele me expulse de vez. 
 
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