sábado, 3 de novembro de 2012 12 comentários

Desconcertos




 Sento-me à beira desta janela, onde o sol dá seus últimos brilhos do dia e a noite vai aos poucos tomando o seu espaço, me deixando nesta penumbra. Fico inerte, protegendo-me detrás das paredes deste quarto que me separa das infinitudes do mundo, limitando-me o espaço. É aqui que encontro o amparo para os meus sofrimentos, dissipando-os entre estes retalhos que sobram do dia. Entrego-os ao fim desta tarde, sob este céu coberto por nuvens escuras que se preparam para banhar-me com sua chuva. 
 A escuridão vem ocupando seu espaço, as nuvens que cobrem o céu antecipam a chegada da noite, o frio toma seu lugar neste quarto, entra pela janela e se hospeda em meu corpo. O vestido que uso não serve para refugiar-me deste frio que entra rapidamente neste recôndito. Continuo parada, como se quisesse que toda esta chuva que está por vir, dissipe-se dentro de mim. E é isso que desejo. Quero que estas águas refugiadas nas nuvens caiam dentro de mim, lave toda esta masmorra, retire os destroços que ha tempos venho colecionando.
 Procuro por subterfúgios, tento esquivar-me desta melancolia costurada na alma. Mas se existem saídas, as desconheço. Não é fácil retirar aquilo que está entrelaçado dentre estes tantos paradoxos desprovido de qualquer ajuda, livrar-se das amarras que atormentam a alma, fazendo-a inquieta. São muitos os caos, não consigo entendê-los, todos são conhecidos apenas por sofrimentos que me impedem de sair deste devaneio. Tento procurar saídas onde só existem inícios, e acho que estou no caminho certo. - Como alguém iria encontrar caminhos certos vivendo uma vida tão incerta quanto a minha? - Não entendo onde quero chegar, se o que faço é apenas estar sentada dentro deste quarto, enclausurada, longe das pessoas, que talvez, possam me oferecer algo que nesta solidão ainda não consegui encontrar.
 Aos poucos, as nuvens que cobrem todo o céu vem revelando os segredos escondidos dentro delas, segredo esse que sempre espero ansiosa a chegar. É a chuva se revelando, aos poucos ela vai molhando o meu rosto com suas águas frias de inverno, aos poucos me entrego a ela. 

 Chuva, tu que ha tempos não via, agora estás aqui. Pudera eu retirar-me deste quarto e dançar sob suas fortes gotas de alegria, e depois, estender-me neste chão de areia, deixando que me molhes o quanto quiseres. 

 Não posso sair daqui, algo me prende, algo bem mais forte que minha coragem. Meus pés não reconhecem a textura das areias, o cheiro das flores, a graça de ser livre. Estou longe desta liberdade, mas que está tão próxima de mim. Basta apenas pular esta janela que me prende neste quarto, retirar os demasiados medos que aqui me aprisionam. 
 Um dia irei desprender-me daqui, sair em busca da liberdade que talvez, também esteja à minha procura. Um dia, quem sabe…


 #conto
sexta-feira, 7 de setembro de 2012 11 comentários

Ausências

Estou me encontrando com os passados, recolhendo os fatos de onde vim, resgatando as memórias e trazendo de volta as lembranças que o tempo aos poucos vêm ofuscando. Escrevo em um diário que tenho desde menino as histórias que fizeram parte da minha vida. Escrevo os sofrimentos, a simplicidade daqueles que me acompanharam até a hora de suas partidas. As suas ausências destruíram o pouco que me restava, me impedindo de querer ser alguma coisa. Então, vou caminhando a esmo, esperando também minha partida. 
 Neste espaço já não me serve nada, não tenho mais os cuidados maternos, as histórias contadas pelo meu avô e nem os irmãos com quem dividiam comigo as tardes de brincadeiras que costumávamos inventar. Faltam-me presenças, não sei quem sou e o que ainda tenho a fazer por aqui. Talvez eu apenas seja os restos de uma histórias que em instantes irá findar-se. Estou na espera de que esse tempo que de mim leva tudo, também me leve, me tire deste mundo onde não sou mais do que alguém ocupando um espaço entre tantos outros.
 Enquanto por aqui ainda permaneço, passo horas observando inerte o que ainda me resta. A casa antiga, paredes que recordam aqueles que um dia aqui moraram e que guardam os sofrimentos que estiveram sempre ao meu lado, fizeram-me retornar aos acontecimentos, memórias que ficaram guardadas nas velhas mobílias que até hoje nunca foram trocadas.
 Vou escrevendo o que estas estruturas me permitem lembrar. Os quartos intactos, paredes que ainda foram pintadas pelo meu tio, e cozinha que guarda o cheiro da comida feita pelo meu avô. Ainda me lembro. São os sabores que não deixei o tempo levar.
 Continuo escrevendo o que meus olhos me deixam enxergar, e também o que eu não queria mais ter lembrado. Das marcas dos sofrimentos que eram próprias da nossa existência, marcas que deixei no passado, mas que agora insistiram em retornar, reabrindo as feridas que já haviam cicatrizado. Também escrevo o que se esconde nos silêncios, esses que mostram o que as imagens não oferecem, revelando os mistérios, e me fazendo lembrar as vozes que há anos não ouço mais. Silêncios que me trazem à realidade e me mostram que agora estou só, numa casa vazia, escrevendo as vidas que fizeram parte desta história, onde agora só resta um personagem. Apenas me resta.
 O antigo que aqui habita me devolve às origens. Me devolve ao menino desajeitado que o tempo me impediu de continuar sendo. Agora cresci, o corpo que antes era meu não caberia no que hoje sou. Cresci, e hoje  o que vive em mim são as saudades, ausências que completam a grandeza desta alma inquieta que é minha. 
 Não me restam mais folhas em branco, tudo o que passei já está escrito. Não tenho mais lembranças, tudo o que vivi se transformaram em palavras, neste diário que ninguém se atreveria a ler, a não ser eu. O que apenas tenho agora são os silêncios, e eles já não me dizem nada. 
Vou relendo todas as realidades postas nestas folhas, onde o começo foi escrito pelas mãos daquele menino que um dia fui, encontrando nestas primeira páginas mais lembranças dos sofrimentos que  juntos passamos. São palavras que devolvem o que a memória deixou escapar. 
 Relendo as tantas vidas que aqui foram escritas e que hoje as ausências tomaram conta dos espaços que  elas ocupavam, me despeço deste mundo antes que ele me expulse de vez. 
sábado, 18 de agosto de 2012 13 comentários

As escolhas que faltavam



 Estava tentando se encontrar em meio a tantas dúvidas que lhe cercavam, não sabia mais para onde ir, queria seguir em frente e ao mesmo tempo voltar para o início, de onde ela tinha vindo, e ficar, desistir de tudo. 
 Não queria mais levar uma vida em que o personagem principal de sua história não seria ela, havia se cansado de dizerem aquilo que para ela poderia ser melhor, então resolveu desacomodar-se, ir atrás de novas conquistas, buscar outros lugares. Mas estava em dúvidas sobre o que queria, se perdeu pelo caminho enquanto fugia daqueles que comandavam sua vida. Fugiu tão depressa que acabou esquecendo o que para ela poderia ser felicidade. 
 Tentou buscar no passado as respostas que pudessem lhe ajudar naquele presente inseguro, mas não encontrou nada, nenhuma lembrança, nenhuma resposta para aquelas tantas perguntas. - O que mais restaria em uma menina sem sinas, sem rumos que a fizessem seguir em frente? - O medo aproveitou seu momento de fragilidade e nela se hospedou sem pedir permissão, fazendo com que as esperanças sumissem sem que ela desse conta, dando lugar a mais inseguranças que agora se tornavam bem maiores, deixando-a parada naquela encruzilhada, onde os caminhos estavam postos, só lhe restava escolhe-los. Então parou e pensou mais uma vez em tudo que havia vivido, nas pessoas que escolheram aquilo que ela conseguiu ter. Lembrou dos poucos sorrisos. Alegrias efêmeras que vinham vez em quando. Vida compartilhada por muitos, onde de segredos não tinha nada. Corpo desajeitado. Mente confusa. Era ela e seus avessos. Um corpo e uma alma procurando as respostas que na dúvida se escondiam. Buscou no que já havia vivido mais uma vez o que lhe traria a chance de retomar os seus passos e finalmente encontrar o que tanto queria. Mas não queria nada.  
 Talvez fosse o medo que amarrava seus pés, sem deixá-la sair dali, parada, em meio a tantas perguntas que insistiam por respostas. Já não queria voltar para o que era antes, mas ela não tinha mais como voltar. As pessoas  que antes fizeram parte de sua vida talvez nem saibam mais de sua existência. O tempo passou muito depressa, enquanto ela, não. Não seguiu o compasso das horas, seu tempo era outro, e andava bem devagar. Infelizmente as horas não pôde obedece-la, as chances de encontrar outros caminhos iam se perdendo pelo tempo. E dela só restava a vontade de sair daquele lugar onde havia passado anos.
 As lágrimas que saiam de seus olhos eram constantes. Ela chorava os excessos que tanto a incomodava. Chorava a duvida. O arrependimento de não ter tomado antes suas decisões. Chorava as contradições. 
 O tempo passava cada vez mais rápido, deixando-a sempre de lado, seu corpo já não suportava seguir as regras das horas. Mas sua alma ainda tinha sede de realizações, só que agora, com destinos que a fizessem, finalmente, dar os passos que a tanto tempo esperavam por caminhos. Então, procurou seguir as escolhas que foram encontradas no futuro que agora teria chegado, mas havia esquecido que seu corpo que envelhecia com o tempo não suportava muita coisa. Suas escolhas teriam que respeitar a idade que lhe impossibilitava fazer certas realizações. Mas quis aproveitar o que ainda tinha, com escolhas menores que simplesmente a fizessem desamarrar o medo de seus pés que a muito tempo teria lhe impedido de sair do lugar. E foi, na simplicidade de apenas querer ir, sem saber se conseguiria chegar. Mas foi. 



domingo, 29 de julho de 2012 13 comentários

O que já se foi


 Em uma tarde onde o sol estava coberto por nuvens acinzentadas que ofuscava o brilho daquele dia de primavera, estava ela, com cabelos longos que cobriam as costas, um vestido que escondia a fragilidade de seu corpo e uma alma inquieta que parecia até maior que ela. Sentada em uma calçada qualquer em uma rua onde ela nunca tinha visto antes, estava perdida no tempo, se encontrando nas lembranças e se prendendo nas saudades. Distante das pessoas, dos amigos, da família, preferia refugiar-se na solidão indo em lugares em que ela desconhecia, rodeada por pessoas que não sabiam o que dentro dela se escondia. Sempre gostou de viver assim, sentada em calçadas, em lugares diferentes que não sabiam nada de sua história. Naqueles tantos lugares se acomodava, esperando a chuva que vinha vez em quando, trazendo as lembranças que nela se hospedava. 
 Seus desejos eram muitos, queria reencontrar-se com o passado que distanciava dela a cada dia que passava. Quis chegar onde não mais podia, quis de volta quem já não estava presente. 
 Sentada naquele lugar sombrio onde a noite chegava junto com a chuva que ela tanto esperava, misturou as lágrimas que vinham de seus olhos com as que vinham das nuvens que pareciam chorar com ela. Entristeceu-se  por o tempo não obedecer suas preces, por ele não trazer de volta o que havia retirado de suas mãos. Pudera ele trazer aquele que era sua maior felicidade, mas não. O que restava era ter que descobrir no futuro que lhe esperava uma outra felicidade que pudesse trazer os sorrisos que não existiam mais em seu rosto. Mas não quis livrar-se do passado, muito menos procurar felicidades por aí. 
 Se alimentava de ausências que a preenchia sem dar espaço para mais nada dentro dela, e assim as  cultivava, fazendo com que crescessem cada vez mais. Cultivava-as como cultivava as flores dos jardins que ela encontrava pelas casas onde passava. 
 Vivia assim, sentada em calçadas frias que guardavam seus segredos deixados pelas lágrimas que nelas caiam e regando as lembranças que jamais foram esquecidas.



#conto
quinta-feira, 19 de julho de 2012 4 comentários

Utopia: Medos e verdades


 Distante dos sonhos que poderia realizar, preferia acomodar-se na angustia de ser quem não queria, por medo de tentar ser diferente daqueles que viviam na mesmice que era própria daquele lugar. O que ela desejou quando criança se desfazia com o tempo, as esperanças iam sendo esquecidas nos dias que passavam depressa demais. O que ficava era aquele pleonasmo que se repetia o tempo todo. Ela nunca quis aquilo, mas a falta de coragem lhe fazia ficar sendo uma igual a tantos outros que se esqueceram de sonhar.
 As suas vontades eram grandes mas ela resolvia deixar seus sonhos guardados dentro dela, naquela fragilidade que se reconhecia de longe. Deixa-los coberto por poeiras em uma gaveta de medos, trancados, onde ela não conseguia retira-los. E se ousasse em fazer isso, não sei se saberia como os tornarem palpáveis.
Seus sonhos, seus medos, seu segredos, seus… Há tanto dentro daquela garota que nem sei se caberia mais alguma coisa. O corpo desajeitado serve de acomodação para tantos segredos. As palavras que nunca saíram de sua boca eram ditas no silêncio que gritava dentro dela, e só era enxergado por quem se atrevesse a olha-la devagar e descobrir o que nela se esconde de mais precioso. Mas quem poderia olha-la dessa forma? Talvez encontre um dia, talvez. Enquanto isso, vai tentando descobrir uma forma de transformar suas utopias em realidade. E assim, quem sabe, despertar outros sonhos que ficavam escondidos nos seus medo.




 
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