sexta-feira, 5 de maio de 2017 0 comentários

Eu.Você

Related imageE a gente se prende. Meu corpo se entrelaça no seu e se liberta. Nós dois, segredos que se misturam entre as conversas e olhares, desejo exposto em carne viva, e a certeza de que as paredes resguardam o que o mundo lá fora desconhece.
Eu. Você. Malditos segredos que não confessam o que eu tanto queria descobrir. Te contrario e você me desmonta aos poucos. Eu, você.  A cada encontro o desejo ultrapassa o sexo, e tento saber se existe algo mais que isso.
Nunca sei. Mas o que nós sabemos é que o tempo não é o mesmo quando estamos juntos. É o que eu sei sobre você. E sobre mim. É o que eu devo saber sobre a vida. As coisas terminam e a gente não percebe porque tudo passou tão depressa, porque tudo era bom o suficiente para que passasse assim.
E se terminar e nenhum de nós percebermos isso? E se a vida nos mostrar coisas que se tornem bem mais importante para nós do que o que a gente vive? E se amanhã nenhum de nós se importarmos com mais nada que nos envolve?

Às vezes sinto falta dos sentimentos. Mas todos têm medo deles.  E só por isso eu também tenho. Às vezes sinto muito, e só por isso eu tento não sentir. Vejo-me fingindo o tempo todo, e quando estou com você não sei se de fato não sinto, ou se tudo é mais uma trama inventada por mim mesma. Perco-me dentro desse abismo de gente moderna. 
segunda-feira, 23 de maio de 2016 1 comentários

Um pouco sobre tudo


Quando não se pode romper com as tramas que lhes pregam
Quando os caminhos se entrelaçam, se cruzam e se desprendem
Quando a presença se mistura entre tantas ausências
Quando a vida se estende em pequenas formas de sobrevivência
Quando os vazios não mais se preenchem
E quando a existência escorrega num abismo mortífero
Ainda assim pode-se haver uma parte, uma arte
Uma verdade inquieta, uma realidade desperta
Uma ideia, ou uma velha, uma prega
Qualquer que seja, como seja
Uma esperança qualquer
Ou uma forma sequer
De mostrar que enquanto há vida
Há também um findar-se sem finda,
Mas que não se termina sem ao menos
Mostrar que pode-se criar
Curar
Amar.

terça-feira, 7 de outubro de 2014 0 comentários

Era uma vez uma criança

 O encanto se fez no minúsculo de uma vida, que na sensibilidade de suas feições fez  renascer em mim o que há muito eu já não mais conhecia. É esta infância que cresce aos meus olhos que me põe no colo e abraça com a grandeza de um amor que me reconstrói, trazendo de volta os pedaços que faltavam para me completar. Rendo-me à miudeza deste ser que não se cansa de ensinar. Como se ele soubesse que tudo que fui já se perdeu de mim faz tempo. Como se ele soubesse que a dificuldade da maturidade está nos desgastes que se leva com o tempo, com as percas que deixei perderem-se, só para ter o prazer de crescer e crescer, e saber que sei mais do que quando fui minúsculo também. E o erro se faz aí, meu filho. Você me ensinou uma vida toda mesmo ainda estando no início dela, e eu quero ensinar-te com o erro que cometi de querer ter mais vida do que eu tinha antes. Ensino-te então que a vida se faz assim, como tu estás, criança, mas que se continua criança também. A continuidade da vida se cria com a sabedoria que não tive, mas que agora venho dizendo. O segredo está em não deixar pedaços pelo caminho. O segredo está em levar-te inteiro por onde passares, meu filho. Conto-te isto, mas não sei se recordarás do que te falo, não sei se te importas em lembrar de coisas para fazer depois. Estás preocupado com o presente, preocupas-te mais com as fantasias que envolvem tua imaginação, e que daqui fico tentando entende-las. Daqui te enxergo nos detalhes e vejo que ainda não aprendi tudo que me queres ensinar. E por isso que me chamas agora para devolver-me os retalhos da vida, para reconstruir-me com os pedaços que faltam. Se tu não tivestes vindo, jamais saberia que o que me faltava era apenas a tua presença, a tua inocência trazendo de volta a minha, tu devolvendo o que um dia fui.
Somos então um reflexo.
Tu és a criança que deixei de lado, e mesmo assim agora me puxas para dividir comigo as brincadeiras, e envolver-me com o encanto das coisas pequenas... Com o teu encanto. 
sábado, 7 de junho de 2014 1 comentários

(...)

       Quando o choro não é suficiente, o sofrimento procura saídas que não cabem no que nos pertence. Suas tramas se findam na angústia que faz-se firme, e ferve, queima. Quando a dor da carne nem alcança as lamúrias da alma, descobre-se então o quão intenso é o sofrimento desperto na existência. Vive na ênfase ofegante de querer mostrar-se, desperta a certeza de que não há um fim, ou de que vive-se apenas os restos de um final. As sobres corroem, cospem e não aceitam a ponta de uma mísera felicidade. A dor que não esconde o prazer que lhe rege, nem muito se perde pra deixar de doer. Aceita ser sentida sem cautela, esvaindo-se no que nem lhe pertence, mas é o que lhe resta, e só por isso dói.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014 8 comentários

Uma história sobre o mundo



 Ouço os gritos que soam por trás das paredes que (não) me aprisiona. São as vozes que não falam, não sabem, não sentem. Repetem-se por um impulso que lhes pregam. São vozes que imploram palavras só para não perderem-se. Só para não acharem-se. 
 Aqui chegam os gritos que já não importa se são ouvidos. São eles donos das falsas verdades que apoderam-se dos seres, pelos verbos andantes que circulam pelas esquinas. Pelas mídias. Maquiam-se de bondade, vestem-se com disfarces e usam a delicadeza do imperativo que se repete, e repete pelos outros. Outros que não sabem o que são nem o que fazem. 
 Outros que são reféns mas não veem as correntes que prendem seus braços, misturam-se entre os bandidos mas que não importam se forem confundidos, bebem a ignorância mas lamentam-se pelas falhas, ferem-se mas não acusam os culpados, matam-se. 

E depois te tudo, e de todos, agradecem pela morte. 
quarta-feira, 27 de novembro de 2013 1 comentários

Sem título

Seus pés alcançavam o longe
Era dono de uma alma que apenas lhe implorava liberdade
Hospedeiro de passagem, encontrava-se em cada canto 
Passos  longos, mente aberta para as possibilidades que hão-de vir
Longe de obrigações, desvendava as belezas escondidas nos ínfimos detalhes por onde passava
Perdia-se para encontrar-se
Os lugares nunca lhe faziam permanecer, por mais belos que fossem
De bagagens feitas, estava sempre pronto para a próxima partida
Sua alegria estava no desconforto da viagem
As estradas lhe pertenciam
Eram tantas as chegadas que, por vezes, esquecia-se de onde estava
No efêmero de suas permanências encontrava-se com uns e outros
Paixões passageiras, que logo terminavam com um "adeus"… E mais uma partida.

         
segunda-feira, 9 de setembro de 2013 6 comentários

Sobre o que não sei

 Sofro com o que não sei, e mesmo assim não me importo em tentar aprender. São as desordens que acobertam-me, usando as fragilidades impostas pela alma que já não sabe ser minha. 
 De paradoxos reinvento os meus dias, e mesmo assim reclamo de seus defeitos. São minhas as complicações, e quando delas tento escapar, descubro que são feitas de mim, ou eu sou feita delas. Se juntam como ínfimos grão que aos poucos se formam neste corpo que dispensa o conforto para dar lugar às vastas perturbações que se afloram a cada instante, não só no corpo, mas no existencial de mim. 

 De uma alma que não sabe o que quer, sou dona. E encontro nela os caminhos tantos, desprovidos de uma certeza. Quais me serão usáveis, desconheço. De procuras já me cansei, agora espero o que me permita descobrir-se, sem me dar ao favor de sair do lugar. Porque, repito, cansei. 
 
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